A Sacralização do Porco

As inúmeras referências a concederem aura de sagrado ao porco colhidas em lugares tão díspares como o Egipto, a Síria, a Grécia, a China, a Melanésia, a Nova Guiné, na Península Ibérica, na Gália e no País de Gales, obrigam-nos a tentar perceber as razões que estão na base de tão evidente constatação.


Estudiosos e consagrados especialistas da área do simbólico (relativo a símbolo, alegórico), apresentação formulações a justificarem essa sacralização que se enunciam de forma resumida.


Diversas deusas foram representadas pela Porca Branca, inúmeras representações o atestam, sendo disso saliente exemplo uma escultura existente no templo de Tarxien, em Malta, que mostra uma porco dotada de treze tetas, numa referência simbólica às treze lunações anuais, como o demonstra Turville-Petre, em Myth and Religion of the North.

Templo budista na Coreia do Sul

Templo budista na Coreia do Sul. Toca-se este porco de ouro na esperança de prosperidade futura.

Na mitologia grega a feiticeira Circe tinha por hábito transformar os homens em porcos, só Ulisses a afrontou e obrigou a desfazer o feitiço após o deus Hermes lhe ter facultado a chave do segredo para lhe resistir.
Outros especialistas da área dos mitos e religiões lembram o mito celta da princesa Goleuddydd, associada à Porca Branca, cujo brilho da sua vivaz brancura é símbolo de matricialidade feminina denominada pelos Romanos de porcella, ou seja porquinha. A palavra porcelana deriva daí, exaltando a estridente brancura.
Nos sacrifícios em honra da deusa Ceres imolava-se-lhe um porco, à deusa Tellus, a terra, também se sacrificava uma porca, a praecidanea.


No Budismo encontramos a Grande Deusa, Marici, a Porca de Diamante ocupando um trono de lótus servida por sete porcos.
A Porca Branca indicou aos “santos” galeses Dyfring, Kentigem, Cadoge Brynach os locais onde deviam fundar os seus mosteiros. Como bem faz notar Richard Cavendish em Legends of the World, os citados santos não o eram, trata-se de antigas divindades pagãs assimiladas pelo cristianismo.


A porca é símbolo da fecundidade e da abundância e princípio feminino da reprodução.
A divinização do porco também surge nas mitologias celta, escandinava, germânica, irlandesa derivando daí signos representativos que perduram nos dias de hoje embora metamorfoseados, caso do porco com uma maçã na boca, recordação do porco sacrificial oferecido aos deuses na passagem do ano pelos noruegueses. Os celtas também entendiam ser a carne de porco consumida apenas nas festas sagradas.


Os povos sul-vietnamitas e da Nova Guiné e Melanésia consideram-no animal sagrado sacrificando-o em honra dos seus antepassados e por ocasião de actos solenes, casamentos e enterros, declaração de guerra ou estabelecimento da paz. As tribos destas regiões acreditam que os seus antepassados anseiam por carne de porco, por essa razão organizam festividades em sua honra nas quais consomem a quase totalidade dos porcos existentes. As festas duram vários dias seguidos, os aldeões engolem grandes quantidades de carne de porco, vomitando o que não podem digerir, para voltarem a comer mais, conforme cita Harris em Cows, Pigs, Wars and Witches.


Os berrões são esculturas zoomórficas de javalis, javardos, porcos. O facto de não existir nenhum outro animal tão representado no período da pré-história na Península Ibérica é manifesta prova de quão estimado e venerado era o porco nessa época. O investigador Santos Júnior deu a conhecer a existência de cinquenta e três berrões, dos quais quarenta e nove achados em Trás-os-Montes e na Beira Alta, posteriores trabalhos arqueológicos desenterraram mais nove até ao ano de 1981.


 

Porca da Vila - Bragança

O Abade de Baçal no Tomo IX, II Parte das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, fornece-nos preciosas informações acerca do porco representado nessas esculturas zoomórficas, as quais se transcrevem em parte:


“Há na província de Trás-os-Montes umas esculturas zoomorfas em pedra, granítica geralmente, representando quadrúpedes, conhecidos pelo nome de Porcos ou Porcas, segundo indica a marcação sexual, nitidamente definida em muito exemplares, se bem que noutros é incognoscível.”
“Parece ser no distrito de Bragança onde abundam mais: são já conhecidas dezasseis…”
“Em algumas partes aparecem estas esculturas ligadas a pelourinhos, como a Porca da Vila de Bragança, que serve de suporte ao desta cidade, e a da Torre D. Chama, mas nenhuma relação tem uma coisa com outra: os pelourinhos são medievais e posteriores e os quadrúpedes em questão remontam à pré-história, contando, portanto, milénios de antiguidade. Têm grande importância como documentação, primária talvez, da arte ibérica, além do significado étnico"
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A Porca da Vila encontra-se na cidadela, tem comprimento 2,05m, altura 0,67m, espessura 0,50m. É de granito.
O douto Abade tece ainda outras considerações sobre o culto ao porco prestado pelos nossos antepassados, que justificam plenamente serem dadas a conhecer aos visitantes do Museu do Bísaro.


Afirma ele:


“Nada admira que um povo primitivo, residente na área transmontana, prestasse culto ao porco, sem dúvida ainda hoje o animal mais prestadio da culinária transmontana; a sua melhor caixa económica, que se alimenta com todos os rebotalhos, assimilando tudo e tudo restituindo centuplicado com presunto, toucinho, unto, manteiga, lombo, salpicões e tabafeias divinais.
Não admira que este povo adorasse o porco, se ele á a base da sua alimentação, se este povo diz ainda hoje que se Deus viesse à terra, o melhor manjar a dar-lhe seria lombo de porco; se este professa o rifão; das carnes o carneiro, das aves a perdiz e, sobretudo, a codorniz, mas se o porco voara não havia carne que lhe chegara?! Não creio que haja ateus, pois os que como tais se apresentam professam superstições que são a escória da crença na divindade pura; mas se algum infeliz destes há, que venha a Trás-os-Montes e veremos se é capaz de resistir ao argumento divinal do lombo, salpicões e tabafeias dos Santos ao Natal, preparados segundo os preceitos da culinária local.
Entendo pois que a Porca da Vila de Bragança e similares ídolos, são restos de um culto totémico vigente outrora…


O acima dito de forma singela pelo erudito investigador evidencia as razões pelas quais o porco foi tão venerado por povos de diferentes raças e nações através dos tempos.


 

Porca da Vila - Bragança
Pelourinho da Vila - Bragança

Fotos: Porca da Vila - Bragança